Controlo glicémico, IG e diabetes tipo 2 com enfoque no sumo de fruta

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1. Resposta Glicémica

A resposta glicémica refere-se ao efeito que os alimentos e as bebidas têm nos níveis plasmáticos de glicemia após a sua ingestão. Depois de uma refeição, os hidratos de carbono (excluindo a fibra) são absorvidos a partir do intestino para a corrente sanguínea, causando um aumento temporário na concentração plasmática de glicose. Este processo denomina-se excursão glicémica. Como resposta, dá-se a libertação da hormona insulina e a concentração de glicose no sangue volta aos níveis de jejum ou mesmo para níveis ligeiramente inferiores.

Existe evidência científica clara de que a resposta glicémica está relacionada com quadros clínicos como a diabetes tipo 2, a doença cardiovascular (CV) e a obesidade. Uma revisão sistémica e uma meta-análise confirmaram que os alimentos com baixo impacto glicémico (i.e., com um efeito atenuado nos níveis plasmáticos de glicemia) têm um papel na redução do risco dos referidos quadros clínicos crónicos.

Existem vários marcadores para avaliar o controlo glicémico, sendo todos utilizados no diagnóstico da diabetes.2 Os valores normais e anómalos são apresentados no Quadro 1.

  • Níveis plasmáticos de glicose em jejum; 
  • Prova de Tolerância à Glicose Oral (PTGO), que mede a velocidade de depuração da glicose plasmática num indivíduo em jejum; 
  • Concentrações de proteínas glicosiladas, e.g. HbA1c, que reflete o controlo glicémico a longo prazo

O efeito glicémico dos alimentos depende igualmente da sensibilidade dos tecidos à insulina, uma hormona libertada pelo pâncreas que controla o metabolismo dos hidratos de carbono estimulando tecidos sensíveis à insulina, como os músculos e tecidos adiposos, para absorver a glicemia, o que diminui os níveis plasmáticos de glicemia no sangue. Quando os níveis glicémicos voltam ao normal, a libertação de insulina diminui.

Em casos de “resistência à insulina”, os músculos e o tecido adiposo não respondem adequadamente à produção de insulina, determinando que os níveis plasmáticos de glicemia permanecem elevados. Isto estimula uma libertação adicional de insulina, dando origem a níveis plasmáticos de insulina cronicamente elevados. Usa-se o modelo homeostático de avaliação (HOMA, na sigla em inglês) para avaliar o risco de resistência à insulina. Este marcador apresenta a dinâmica entre os níveis de açúcar iniciais (em jejum) e a resposta da hormona insulina; a variação saudável é 0,5–1,4.

2. Índice Glicémico

Os hidratos de carbono constituem uma fonte de energia significativa na nossa alimentação. A resposta glicémica depende do tipo de hidratos de carbono e respetiva composição molecular. Além disso, o IG é influenciado pela matriz alimentar em que os hidratos de carbono estão presentes. Por sua vez, essa matriz é influenciada pelo processamento alimentar e pela presença de fibra alimentar, proteína e gordura. Alimentos com hidratos de carbono que resultam num aumento lento da glicemia podem ser chamados de alimentos de baixo índice glicémico.

A glicose pura é rapidamente absorvida pela corrente sanguínea e é lhe atribuído um valor glicémico padrão de 100. Comparando alimentos compostos por hidratos de carbono a esses 100, é possível atribuir a esses alimentos um índice relativo. O IG é definido como a área sob a curva após a ingestão de 50g de hidratos de carbono num teste alimentar dividido pela área sob a curva após consumo de 50g de glicose (às vezes é utilizado pão branco em vez de glicose).

Regra geral, existem três categorias de alimentos com base nos seus valores de IG:

  • alimentos com alto IG (≥ 70)  
  • alimentos com IG intermédio (56–69) 
  • alimentos com baixo IG (≤55)

Consumir alimentos com baixo IG, em vez de alimentos com alto IG, tem um efeito positivo na redução dos níveis de glicemia pós-prandial e no controlo das excursões glicémicas (Fig.1). Hidratos de carbono totalmente digeríveis e de rápida digestão, como glicose, maltodextrina, pão branco e amido de batata cozida (produtos com alto IG), produzem um aumento rápido na glicose do sangue, seguido por uma redução igualmente rápida. A ingestão frequente de alimentos com alto IG tem implicações no impacto glicémico da refeição. Consumir frequentemente refeições com alto IG, em condições de excesso de peso ou inatividade, vai resultar no desenvolvimento de resistência à insulina e diabetes tipo 2.

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A ingestão de frutose, encontrada, por exemplo na fruta, no mel e nos sumos de fruta, resulta apenas num aumento mínimo da glicose no sangue, explicando porque é que alguns alimentos que contém frutose tendem a ter uma resposta glicémica relativamente baixa. É também por essa razão que os sumos de fruta 100% têm um baixo IG (Fig.2).

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3. Carga Glicémica

A resposta glicémica a um alimento depende não apenas do IG, mas também do teor total de hidratos de carbono ingeridos. Foi com esta base que a CG foi criada; definida como a relação entre cada porção de hidratos de carbono ingerida e o aumento dos níveis plasmáticos de glicemia. A CG é classificada como: baixa (≤ 10), intermédia (11–19) e elevada (≥ 20). As frutas e os sumos de fruta têm um IG baixo e uma CG intermédia (Quadro 2).

Uma revisão sistemática e meta-análise dos resultados de 45 estudos concluiu que os regimes alimentares constituídos por alimentos de baixo IG têm um efeito de redução sobre os níveis de glicose sanguínea em jejum e sobre o HbA1c, particularmente em pessoas com mau controlo da glicose sanguínea em jejum. Adicionar hidratos de carbono não digeríveis aumenta estes efeitos. Uma baixa CG foi mais importante que o IG para a redução dos níveis de triglicéridos.

4. Sumo de Fruta: Controlo Glicémico e Diabetes tipo 2

Num ensaio, 36 indivíduos com excesso de peso e com níveis elevados de colesterol no sangue foram submetidos a um estudo clínico, randomizado e controlado9, para investigar os efeitos metabólicos da ingestão diária de sumo de laranja 100%. Durante 12 semanas, os participantes ingeriram 250ml de sumo de laranja ou uma bebida de laranja controlada com os mesmos níveis de açúcar e valor energético. Os resultados revelaram que o sumo de laranja 100% não teve efeitos adversos na sensibilidade insulínica (HOMA-IR), no nível de lípidos no sangue ou no peso. Os autores concluíram que: “o consumo diário de 250ml de sumo de laranja durante três meses não resultou num aumento da ingestão de açúcar na alimentação num cohorte de homens com excesso de peso e com concentrações de níveis de colesterol elevados, nem se verificou durante a intervenção um aumento de peso ou uma diminuição na insulina”.

Uma meta-análise de 12 ensaios clínicos, randomizados e controlados, envolvendo mais de 400 participantes obesos ou com fatores de risco para diabetes ou doença cardiovascular, examinou o efeito de bebidas açucaradas nos níveis de glicose e insulina em jejum. Em metade destes estudos, a ingestão de sumos de fruta 100% foi de, pelo menos, 400ml por dia. Os resultados totais demonstraram que a ingestão de sumos de fruta 100% não tiveram efeitos significativos nos níveis de glicose no sangue e de insulina em jejum.

Outra meta-análise de quatro cohortes de adultos demonstrou que a ingestão de bebidas de fruta com açúcares adicionados estava significativamente associada ao aumento do risco de diabetes tipo 2 (RR = 1,28, p = 0,02) enquanto que a ingestão de sumos de fruta 100% (que, por lei, nunca contêm açúcares adicionados) não demonstrou a mesma associação (RR = 1,03, p = 0,62).

A mais recente análise sistemática e meta-análise, baseada em 18 estudos controlados e randomizados, examinou os efeitos da ingestão de sumos de fruta 100% na homeostase da glicose-insulina. Comparados com os controlos, os sumos de fruta 100% não registaram efeito significativo nos níveis de glicose sanguínea em jejum (diferença média: -0.13 mmol/l; 95% CI -0.28, 0.01; p=0.07), na insulina sanguínea em jejum (-0.24 mmol/l; 95% CI -3.54, 3.05; p=0.89), no HOMA-IR (-0.22; 95% CI -0.50, 0.06; p=0.13) ou no HbA1c (-0.001%; 95% CI -0.38, 0.38; p=0.28). Os autores concluíram que a meta-análise sugere “um efeito neutro da ingestão de sumos de fruta 100% no controlo glicémico” e, por consequência, “o consumo de sumos de fruta 100% não está associado ao aumento do risco de diabetes”.

Conclusão:

Em geral, as evidências disponíveis demonstram que os sumos de fruta 100% não têm efeitos negativos na homeostase da glicose-insulina e não são um fator causal no desenvolvimento de diabetes tipo 2. Estas conclusões estão provavelmente associadas ao facto de os sumos de fruta 100% terem um baixo IG e conterem quantidades significativas de componentes bioativos, como os flavonoides, com propriedades demonstradas ao nível da redução lipídica, sensibilidade à insulina, ação anti-hipertensiva e anti-inflamatória. O que pode explicar também a observação de que a ingestão elevada de sumo de laranja 100% e a ingestão de bebidas açucaradas, com o mesmo valor energético e quantidade de açúcares, afetam de maneira diferente o risco metabólico de indivíduos saudáveis.

Título de Artigo

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